Fonte: Fabiana Cambricoli, Estadão, 17/05/2026
Um eletrocardiograma feito sem eletrodos grudados no peito. Um estetoscópio digital que grava os sons do coração e do pulmão para que o médico escute a distância. Câmeras com lentes acopladas que permitem examinar ouvido, garganta, olhos e lesões de pele. Esses são alguns dos recursos disponíveis em cabines de telemedicina instaladas em empresas e, mais recentemente, em comunidades de São Paulo como parte de um projeto social.
A tecnologia, desenvolvida pela empresa h.ai, tem como objetivo oferecer uma espécie de pronto atendimento híbrido: o paciente vai até a cabine, passa em um atendimento presencial com uma técnica de enfermagem, faz exames básicos ou complementares conforme a queixa e, em seguida, é atendido por um médico generalista por videochamada.
A diferença em relação à telemedicina convencional é que o profissional não depende só do relato do paciente: recebe em tempo real dados como pressão arterial, glicemia, saturação, frequência cardíaca, além de resultados de exames como eletrocardiograma, ausculta cardíaca e dermatoscopia.
A tecnologia começou a ser oferecida pela h.ai há cerca de três anos para empresas que queriam dar esse atendimento aos funcionários dentro de suas sedes ou fábricas. Em alguns casos, o serviço é oferecido por meio do plano de saúde corporativo.
Segundo Loraine Burgard, cofundadora da h.ai e responsável pela área de estratégia da empresa, o objetivo é agilizar atendimentos, reduzir afastamentos por causas preveníveis e melhorar o acompanhamento de trabalhadores com doenças crônicas.
Hoje, diz ela, há 20 cabines em operação no ambiente corporativo. No final de 2024, a startup começou a levar a tecnologia para alguns bairros da periferia paulistana, com atendimento gratuito por meio de um projeto social com apoio financeiro da farmacêutica AstraZeneca e parceria com organizações locais.
O Pulsa conheceu a cabine instalada em um centro esportivo na região do Grajaú, zona sul de São Paulo. O atendimento começa com o cadastro do paciente. Depois, a técnica de enfermagem avalia a queixa e seleciona, em um sistema próprio da h.ai, quais exames serão feitos antes da consulta.
Se a queixa for dor de garganta, por exemplo, pode ser usada uma lente para capturar imagens da região. Se houver suspeita de problema no ouvido, outra lente permite fazer a otoscopia. Para lesões de pele, como pintas, manchas ou feridas, há uma lente de dermatoscopia, capaz de ampliar a imagem em até 50 vezes para avaliação médica.
EXAMES NA CABINE. São 15 exames que podem ser feitos na cabine, entre eles glicemia, pressão arterial, saturação, frequência cardíaca, eletrocardiograma, ausculta pulmonar e cardíaca, otoscopia, dermatoscopia e imagens de garganta. Há ainda lente para fundo de olho, usada no acompanhamento de diabéticos. No ambiente corporativo, a estrutura também pode incluir audiometria e acuidade visual, exames usados em saúde ocupacional.
Um dos equipamentos que mais chamam atenção é o biomonitor, que faz vários tipos de exames. Para fazer o eletrocardiograma, o paciente não precisa colocar eletrodos adesivos pelo corpo. Ele coloca os dedos sobre sensores do aparelho e o posiciona na altura do peito, enquanto o sistema registra os dados cardíacos. O mesmo equipamento também mede temperatura, saturação, frequências cardíaca e respiratória e pressão arterial.
Outro recurso é o estetoscópio digital. A técnica de enfermagem posiciona o aparelho no tórax ou nas costas do paciente, conforme a orientação exibida no sistema, e grava alguns segundos da ausculta. O áudio é enviado ao médico, que pode ouvir os sons cardíacos ou pulmonares a distância.
Modelo tenta resolver uma limitação comum da telemedicina feita somente pelo celular
Se o médico considerar necessário, a técnica volta à cabine durante a teleconsulta e repete o exame enquanto ele acompanha em tempo real.
Para a empresa, esse modelo tenta resolver uma limitação comum da telemedicina feita só pelo celular. Numa consulta online tradicional, o médico depende do que o paciente consegue relatar. “Fica difícil para o médico conseguir ser resolutivo sem esses exames”, diz Loraine.
Na cabine, depois que os exames são feitos, o médico entra por videochamada e já visualiza as informações coletadas com o auxílio da técnica de enfermagem. Se o paciente já tiver passado pelo serviço antes, o profissional também consegue acessar o histórico. Ao fim do atendimento, se houver necessidade de receita ou pedido de exame, o documento é enviado por mensagem no celular cadastrado pelo paciente.
Segundo a empresa, a cabine consegue resolver mais de 90% dos casos atendidos no próprio serviço, seja com orientação, receita ou acompanhamento de sintomas simples. A proposta, porém, não é substituir prontos-socorros em situações de emergência. Pacientes com casos graves não devem procurar essas cabines. “Aqui não é para uma pessoa que está enfartando”, diz Lorraine. “A ideia é tirar aquela pessoa que não devia estar no PS: uma dor de garganta, uma renovação de receita, medição de pressão.”
A outra cabine atualmente em funcionamento pelo projeto está localizada na região de Cidade Ademar, também na zona sul, de segunda a sexta, em horário comercial. Há tanto a possibilidade de atendimento sem hora marcada quanto de consulta agendada.
Desde novembro de 2024, o projeto Saúde na Favela, como foi batizado, realizou cerca de 5 mil atendimentos em comunidades, segundo a h.ai. Os números nos primeiros meses indicam alta prevalência de doenças crônicas e fatores de risco para problemas cardiovasculares: 59,6% dos pacientes apresentavam sobrepeso ou obesidade e 25,5% tinham hipertensão. Entre pessoas com mais de 50 anos, a prevalência de pressão alta chegou a 35,5%. •
Fonte: Fabiana Cambricoli, Estadão, 17/05/2026





